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A crise dos millennials e a transmissão intergeracional do desejo na contemporaneidade

  • 29 de jan.
  • 3 min de leitura

Eles cresceram sob a promessa de que estudo e esforço garantiriam um futuro melhor. Mas a geração Y ou millennials, nascidos entre 1981 e 1996, acabou se tornando símbolo de frustração coletiva, muitas vezes descrita por estudiosos como a geração mais infeliz. No Brasil, representam cerca de 25% da população e enfrentam esgotamento profissional, ansiedade e pressão constante por sucesso, agravados por crises econômicas e pela pandemia.


Uma crise psíquica contemporânea


O psicanalista Christian Dunker destacou, na aula “Crise psíquica na sociedade contemporânea”, do curso de divulgação científica para jornalistas e comunicadores (ECA-USP), um importante paralelo entre o sofrimento psíquico e as transformações históricas, sociais e econômicas.


Dunker relacionou esse cenário às transformações históricas, como o período pós-guerra. Entre essas mudanças, destaca-se a transformação dos nossos modos de linguagem, especialmente no impacto da popularização da internet e das telas na formação subjetiva das novas gerações:

“A internet se populariza em um novo formato — bandas digitais, sites de consumo estético — em que você já tem uma geração se formando a partir das telas. E aí você tem uma mutação nas nossas formas fundamentais de sofrer”.

Depressão, ansiedade, burnout e sobrecarga de trabalho são expressões desse mal-estar. Dados reforçam o cenário: o Brasil lidera os casos de ansiedade no mundo, segundo a OMS, e pesquisas apontam que 45% dos millennials brasileiros se sentem ansiosos ou estressados ​​no trabalho.


Nova forma de durar


Para Dunker, a crise financeira de 2008 e, mais tarde, a pandemia de Covid-19 revelaram um novo sofrimento coletivo:

" A partir de 2008, culmina nesse sofrimento contemporâneo — contemporâneo no sentido de atual — em que há uma percepção coletiva, uma espécie de diagnóstico compulsório, trivial, em que as pessoas passam a prestar muita atenção e a demandar transformação nas relações consigo mesmas e nas relações que têm com o próprio sofrimento. Então, isso é conexo com a pandemia de Covid e com os efeitos sociais do isolamento, do recolhimento, da destruição dos laços, do contato consigo, mas também do temor ao outro, do temor ao contágio, da morte e do luto.” explica o psicanalista.

Portanto, percebe-se a partir da fala do psicanalista que essa nova forma de sofrimento é simultaneamente psíquica, social e econômica. E essa leitura não fica apenas no campo teórico: os números confirmam a dimensão do problema.


Essa “crise psíquica”, como o próprio Dunker define, se manifesta em números crescentes: o Brasil ocupa o primeiro lugar mundial em casos de ansiedade, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), além de registrar aumento expressivo de depressão, abuso de substância e distúrbios do sono.



A transmissão do desejo e o ciclo de expectativas frustradas


Dunker relaciona essa crise à chamada transmissão intergeracional do desejo — a passagem de expectativas e promessas entre gerações. Em vez de ser apenas repetida, essa herança é transformada conforme o contexto histórico. Segundo o psicanalista, a promessa feita aos millennials não se cumpriu:

Como é que uma geração faz uma promessa para a geração subsequente e diz: 'Olha, siga as regras, porque, se você fazer isso, a gente tem uma vida boa pela frente'. Por exemplo, no Brasil, a gente tinha uma narrativa desse tipo: 'Vamos estudar mais, porque, se a gente estudar melhor, você cresce na vida, sobe na vida'. Essa transmissão geracional foi profundamente afetada pela entrada do neoliberalismo e das tecnologias digitais, porque as mais novas sabem e dominam essas tecnologias do que a geração anterior”, destaca Dunker.

A receita que parecia garantir o sucesso foi abalada pelo avanço do neoliberalismo e das tecnologias digitais, segundo o psicanalista. Mais do que os efeitos econômicos ou tecnológicos, Dunker destaca que o peso recai sobre a altíssima perspectiva lançada a essa geração:

Eles se formaram naquele primeiro momento do neoliberalismo, antes da crise de 2008, quando prevaleceu a ideia de que o futuro seria muito melhor — bastava seguir o curso e cumprir as regras. Vários autores já apontaram que essa foi a geração mais infeliz desde que se começou a contar a história das nações. A expectativa era enorme, mas a realidade encontrar o oposto. O resultado é um sentimento generalizado de fracasso e inadequação, que se manifesta de forma aguda nas relações com os próprios corpos”, observa Dunker.

Conclusão

A partir das reflexões de Christian Dunker, entende-se que a crise psíquica contemporânea acompanhou as transformações históricas, sociais e econômicas. Com isso, surgiram novas formas de sofrimento, tanto nas relações com os outros quanto na relação consigo mesmo. No caso da geração millennial, a dificuldade em lidar com altas expectativas e promessas não cumpridas resultou em frustrações e adoecimento psicoemocional.


Artigo produzido como conclusão do curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, da ECA-USP, baseado na aula “Crise psíquica na sociedade contemporânea”, ministrada pelo professor Christian Dunker, titular do Instituto de Psicologia da USP, em 20 de outubro de 2025.


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