Prefeita de Cachoeira agradece apoio recebido e garante que não vai retroceder no mandato
- 31 de jan.
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Na manhã desta quinta-feira (29), o programa Radar do Povo, transmitido pela rádio Santa Cruz FM 87,9 e apresentado pelo radialista Josy Sena, com a participação da jornalista Ivana Moreira, entrevistou a prefeita de Cachoeira (BA), Eliana Gonzaga.
Eleita nas eleições municipais de 2020, Eliana tornou-se a primeira mulher negra a administrar a cidade do Recôncavo Baiano. No entanto, na semana passada, ela ganhou notoriedade nacional após relatar ameaças de morte sofridas desde novembro do ano passado. Durante o bate-papo, a prefeita falou sobre sua luta pessoal e política, sua campanha, as ameaças, mortes ocorridas e, por fim, sobre sua gestão.
História
Eliana Gonzaga de Jesus, 52 anos, natural de Cachoeira, vem de uma família de feirantes e, desde pequena, ajudava seus pais no mercado municipal da cidade, vendendo sandálias. Assim, ela se considera, desde sempre, uma lutadora.
“Pelo fato de crescer trabalhando, isso só veio fortalecer os vínculos com toda a população cachoeirana. Eu sempre tive contato direto tanto com a população rural quanto urbana da minha cidade.”
A partir da juventude, na década de 1980, Eliana já atuava no ativismo social e era voluntária em trabalhos sociais, principalmente nos períodos de enchentes do Rio Paraguaçu e nas campanhas de vacinação. Logo em seguida, ingressou na militância sindical na categoria da agricultura familiar. “Com o fortalecimento da agricultura familiar, buscou-se, na verdade, evitar o êxodo rural. Enfim, a luta era nessa linha: garantir o direito à terra”, explicou.
Trajetória na política
Em 2008, Eliana aceitou o desafio e se lançou na política, obtendo êxito. Tornou-se, assim, a candidata mais votada da história política de Cachoeira, entre as mulheres, para o Legislativo. Em 2012, o mandato foi renovado. Já em 2016, disputou o pleito como vice-prefeita, mas não foi eleita.
“Em 2016 eu fiquei sem mandato, contudo, continuei os meus trabalhos sociais e a militância, levantando a bandeira da democracia, dos trabalhadores e trabalhadoras, na luta pela garantia de direitos e acesso às políticas públicas.”
Mulheres na política
Dados divulgados durante a campanha de 2020, pelo movimento #VEMVoteEmMulheres, apontam que as mulheres ocupam cerca de 13,05% dos cargos políticos em todas as esferas, sendo apenas 4% representados por mulheres negras. Diante desse cenário, a prefeita de Cachoeira ressaltou a importância da inserção feminina nos espaços políticos.
“Em 2020 eu aceitei o clamor popular e me lancei como candidata a prefeita. Logramos êxito com a nossa vice, Cristina, formando uma chapa 100% feminina. Nós acreditamos no potencial das mulheres na ocupação desses espaços de poder, sobretudo na política”, afirmou.
Eliana também se dirigiu a todas as mulheres, pedindo que levantem essa bandeira de luta para que o cenário político seja transformado por meio da atuação feminina.
As ameaças e mortes
A cidade de Cachoeira, com cerca de 33 mil habitantes, elegeu sua primeira prefeita negra após 490 anos de fundação. O resultado do pleito de 15 de novembro de 2020 apontou Eliana como vencedora, com 55,94% dos votos válidos, derrotando o então candidato à reeleição Fernando Antônio da Silva Pereira (PSD), que obteve 42,37%.
Porém, segundo a prefeita, não houve tempo para comemorar a vitória. Após o resultado das eleições, as ameaças começaram a surgir. No dia 17 de novembro, um apoiador de sua campanha foi morto em Cachoeira.
“Ivan Passos foi brutalmente assassinado com 10 tiros, exatamente o número 10 que representa a nossa sigla partidária. Não sei se foi mera coincidência ou não, mas parecia que alguém queria passar um recado”, pontuou.
Nos dias seguintes, diversas pessoas que atuaram na campanha começaram a receber ameaças. Também circulava na cidade a informação de que Ivan seria apenas o primeiro de uma lista com outros nomes.
“Outras pessoas começaram a receber ameaças e se dirigiram à nossa residência pedindo socorro. Eu nem pude participar do velório do Ivan, porque precisei retirar essas pessoas da cidade. Inclusive, meu nome, o do meu marido e o do meu filho constavam nessa lista”, relatou.
Durante a entrevista, Eliana também mencionou uma ligação recebida no dia 2 de dezembro. “Nesse dia, eu recebi uma ligação com o som de uma rajada de metralhadora. Registrei um boletim de ocorrência, e a delegada disse que se tratava de uma ameaça direta. Começaram a circular conversas de que, se eu renunciasse, tudo acabaria. Enquanto mulheres negras, nós não retrocedemos, não nos curvamos. Temos sangue de guerreiras”, declarou.
Mesmo diante das ameaças, a prefeita tomou posse em 1º de janeiro. Contudo, outro aliado foi assassinado no dia 7 de março de 2021. Segundo ela, Georlando Silva era o segundo nome da lista.
“Georlando foi brutalmente assassinado com 19 tiros no rosto, desfigurando completamente sua face. Para realizar o velório, foi necessário imprimir uma foto para colocar sobre o rosto. Um crime bárbaro”, lamentou.
A rotina
Por questões de segurança, a prefeita precisou deixar sua cidade natal para proteger a família e passou a contar com escolta da Polícia Militar e da Guarda Municipal.
“Eu saio de casa antes das cinco horas da manhã, da casa onde passei a noite, porque a cada dia dormimos em um lugar diferente. Não estamos tendo a tranquilidade e a segurança devidas para permanecer no município. Queria estar na casa onde nasci, me criei e constituí família, mas não posso, por conta desse clima de insegurança”, relatou.
Apesar disso, Eliana destacou que o trabalho na prefeitura segue sendo executado normalmente.
“Estou despachando diariamente. Hoje, às 6h10, eu já estava no gabinete com o secretário de Educação e, depois, com a Secretaria de Saúde. No dia 14 de abril, durante uma ação de combate à covid-19, dois homens em uma moto começaram a me intimidar, mas, ao perceberem a presença dos policiais que faziam a segurança, fugiram em alta velocidade”, relembrou.
Segundo a gestora, o trabalho continua firme mesmo diante da tensão. “As ameaças são constantes, mas também estamos o tempo todo trabalhando. Não vamos retroceder.”
Apoio do povo e de vários órgãos
A prefeita aproveitou para agradecer o apoio recebido de diversos setores, inclusive do exterior.
“Essa pequena parcela que causa esse clima de terror psicológico não representa o povo cachoeirano. Estou sentindo o acolhimento da população de Cachoeira. Meu coração é somente gratidão”, afirmou.
Eliana agradeceu ainda o apoio do Comando Geral da Polícia, de órgãos públicos, do partido Republicanos, de frentes suprapartidárias, da Secretaria de Segurança Pública, de movimentos sociais, do movimento negro, de diferentes segmentos religiosos e da comunidade LGBTQIA+, entre outros.
Trabalho na gestão
Por fim, a prefeita convidou a população a visitar Cachoeira no período pós-pandemia para conhecer projetos da gestão, como o turismo náutico.
“Já estamos construindo o terminal náutico do município, com ligação até a Baía de Todos-os-Santos. Também iremos promover o turismo rural, religioso e ecológico”, destacou.
Eliana ressaltou ainda que sua gestão será pautada na valorização da cultura local, no fortalecimento da agricultura familiar e no reconhecimento dos artistas da cidade. Pensando no São João do próximo ano, a prefeita prometeu uma festa com grandes atrações locais e nacionais.
Matéria baseada em entrevista concedida à rádio Santa Cruz FM 87,9, publicada no site Bahia Recôncavo em 29/04/2021, com foco na adaptação da linguagem oral para o formato escrito. Link da publicação: https://bahiareconcavo.com.br/2021/04/29/prefeita-de-cachoeira-agradece-apoio-recebido-e-garante-que-nao-vai-retroceder-em-seu-mandato/


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